“Quem não evoluir com a inteligência artificial ficará para trás”

O Dr. Wellington Leitum analisa o presente e o futuro da imagem cardiovascular avançada

Durante entrevista ao Diagnóstico Journal, o Dr. Wellington Leitum falou sobre a evolução da ressonância magnética cardíaca, o impacto da inteligência artificial na produtividade médica e o futuro da imagem cardiovascular.

Com formação em clínica médica, cardiologia e fellow em imagem cardiovascular, Leitum atua no Grupo Santa, um dos maiores grupos hospitalares do Brasil, onde coordena protocolos, aquisição e padronização de exames em um parque tecnológico composto por múltiplos equipamentos de tomografia e ressonância magnética de diferentes fabricantes.

A evolução da ressonância magnética cardíaca

Segundo o especialista, o maior avanço da imagem cardíaca nos últimos anos foi o ganho em precisão diagnóstica proporcionado pelas novas tecnologias e ferramentas quantitativas.

“Antigamente fazíamos contornos totalmente manuais. Hoje conseguimos análises muito mais precisas e quantitativas. Tecnologias modernas permitem medir e quantificar alterações que antes avaliávamos apenas de forma qualitativa”, explica.

Ele destaca especialmente o avanço dos mapas multiparamétricos na caracterização tecidual cardíaca.

“No caso da miocardite, por exemplo, antes dependíamos basicamente do realce tardio e das imagens ponderadas em T2. Hoje conseguimos identificar alterações sutis através dos mapas paramétricos, inclusive em fases de transição entre o quadro agudo e subagudo, quando pequenas lesões poderiam passar despercebidas ao olho humano.”

Outro destaque é o uso crescente do strain em pacientes com fração de ejeção preservada.

“Hoje conseguimos detectar disfunção sistólica subclínica em pacientes que utilizam medicações cardiotóxicas ou anabolizantes, mesmo com fração de ejeção aparentemente normal. Antes não tínhamos esse recurso.”

Apesar do entusiasmo, Leitum ressalta que muitas dessas ferramentas ainda necessitam de padronização e validação multicêntrica.

“Precisamos de protocolos mais uniformes, algoritmos padronizados e maior reprodutibilidade entre softwares e equipamentos. Ainda existe muito debate nessa área.”

Inteligência artificial e produtividade médica

Ao abordar o impacto da inteligência artificial na rotina clínica, o especialista é direto: a transformação já aconteceu.

Leitum lembra que iniciou sua formação em imagem cardiovascular em 2013 trabalhando com softwares totalmente manuais.

“Hoje, o tempo necessário para analisar e laudar um exame caiu drasticamente. A quantidade de informação que conseguimos entregar aumentou muito.”

Ele explica que a IA permitiu ampliar significativamente a produtividade, especialmente para profissionais dedicados exclusivamente à imagem cardiovascular.

“Se eu não tivesse migrado para ferramentas baseadas em inteligência artificial, tanto na ressonância quanto na tomografia cardíaca, minha produtividade seria extremamente baixa.”

Além da velocidade, ele destaca a riqueza de informações atualmente disponíveis.

“Hoje consigo avaliar volumes cardíacos, fração de ejeção, função atrial e diversos parâmetros quantitativos de forma muito mais eficiente.”

Caracterização tecidual: a nova “cereja do bolo”

Questionado sobre quais tecnologias considera mais disruptivas rumo a uma cardiologia mais personalizada e preditiva, Leitum aponta a caracterização tecidual como a grande protagonista do futuro.

“Quando fiz meu fellow, meu professor dizia que o realce tardio era a cereja do bolo. Hoje eu acredito que a verdadeira cereja do bolo será a análise tecidual através dos mapas paramétricos.”

Segundo ele, técnicas como mapeamento T1 e cálculo de volume extracelular estão revolucionando o diagnóstico não invasivo de doenças como:

– amiloidose cardíaca

– doença de Anderson-Fabry

– miocardites

– cardiomiopatias infiltrativas

“O potencial dessas ferramentas é extraordinário.”

Ele também destaca as vantagens do strain por ressonância magnética.

“O grande diferencial é a possibilidade de reavaliar exames antigos. Podemos pegar exames prévios e realizar análises retrospectivas, algo que muitas vezes não é possível em outros métodos.”

No entanto, reforça novamente a necessidade de padronização entre:

– técnicas de aquisição

– campos magnéticos

– softwares

-algoritmos

“Tudo isso precisa ser organizado pelas diretrizes para alcançarmos verdadeira reprodutibilidade.”

O futuro da imagem cardiovascular

Para Leitum, a inteligência artificial não substituirá o médico — mas transformará profundamente a profissão.

“A inteligência artificial erra. Mesmo os melhores softwares ainda necessitam de validação humana. Ela nunca vai substituir completamente o especialista.”

Por outro lado, ele acredita que os profissionais que se recusarem a utilizar IA ficarão para trás.

“Quem não acompanhar essa evolução será descartado pelo mercado. Os médicos que estiverem aliados à inteligência artificial vão se destacar em produtividade e precisão.”

Na sua visão, a imagem cardiovascular tende a se tornar ainda mais especializada e seletiva.

“Não é possível ignorar essa transformação. A produtividade muda completamente quando trabalhamos integrados à IA.”

E conclui:

“A inteligência artificial não é uma ameaça. Ela é uma ferramenta para quem quer estar na vanguarda da medicina.”

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